terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Rock'n'Roll HeLL

Toda célula familiar é um caldeirão de excentricidades pois de perto ninguém é normal e a minha família não foge à regra. Somos apenas três, eu meu pai e minha mãe, viemos de Curitiba para morar no Rio de Janeiro quando eu tinha um ano de idade. O fato interessante é que a vida toda eu tive um tratamento de irmão mais novo e não um filho na realidade. Acredito que nós três aqui sofremos de um complexo de Peter Pan acentuado e eu também sou o resultado dessa condição, pois por obra destes o meu amadurecimento também está longe de atender aos mínimos pré-requisitos estabelecidos. De qualquer maneira por ora ambos estão fartos de serem providos com os referenciais para que se mantenham jovens e antenados e ao que parece já encontraram formas alternativas de seguir e agora eu me encontro deslocado desta função. Eles estão comigo mas mantém-se alheios a minha atuação e ao mesmo tempo parecem curiosos com o que faço. Por ora eu não me sinto motivado a satisfazer tais curiosidades paternas. Meus pais são os melhores, mais inteligentes e auto-suficientes que a maioria e com isso tem poucos amigos. Contudo, inteligentes que são, eu acredito que reservam o direito de se acharem visto a quantidade de imbecis existentes mundo afora que nada sabem e ainda se colocam acima de todos. A verdade é que eles conseguem disfarçar a total excentricidade que carregam. A maior prova desse aspecto foi a revelação de minha verdadeira paternidade, minha mãe, em Curitiba nos anos sessenta, foi casada com o escritor PAULO LEMINSKI que após uma sucessão de encrencas e traições proporcionadas por este, conheceu e apaixonou-se por aquele que vem a ser o seu atual marido e o pai que me criou e mesmo grávida separou-se do primeiro, todos viviam na mesma casa e cultivavam uma vibe existencialista. De qualquer maneira, a confusão estava formada. Eu nasci no ano de 1968 e haviam dúvidas de quem seria o meu pai. O fato nunca foi abordado até que em 2000 trouxeram tudo à tona ao escreverem a biografia do Paulo Leminski. Loucura por loucura eu acredito em mim, não cultivo barreiras criativas e tenho direito de expressar tudo o que se passa na minha cabeça, vivo a vida sem tropeços um dia de cada vez e continuo a usar de todos os meios possíveis para cumprir a minha missão de guerra na terra. Sou um observador da vida momentânea e do caos urbano, a incoerência me atrai mas não quero convívio com gente incoerente. Tenho um olhar de raio-X sobre todas as coisas que me cercam, destilo e aprecio boas doses de humor negro, sagaz e palhaço. Tive uma ótima infância, daquelas que só quem cresceu durante os anos setenta é que sabe dos efeitos benéficos daqueles tempos, principalmente para uma criança. Aos quinze anos ocorreu o fato mais importante da minha vida: A descoberta do Heavy Metal. Tudo começou em 1983 com a vinda do Van Halen e do Kiss ao Brasil, nesse meio tempo, no espaço de alguns meses fiz as minhas primeiras aquisições do gênero, duas fitas cassete do Ac Dc e do Iron Maiden, o "For Those About to Rock" e o "The Number of The Beast" respectivamente. Minha vida mudou da noite para o dia-ou melhor-do dia para a noite e esta que até então parecia uma existência branda e sem maiores solavancos, agora se apresentava plena de significados, tudo fez sentido. Pergunte para qualquer metalhead veterano sobre o início dos anos oitenta e este dirá as mesmas impressões. É claro que antes havia a música pop e o rock progressivo que meus pais escutavam e que eu também de carona apreciava, mas tudo parecia ultrapassado e o fato ficou latente à partir desse novo mundo que surgia à minha frente. Embora para alguns não pareça e esses não merecem crédito, o heavy metal é uma coisa séria, um gênero musical que se mantém vivo há quarenta anos, outros estilos, mesmo o rock'n'roll dos anos cinquenta que impulsionou nomes como Elvis, Chuck Berry, Little Richard e propagou a primeira explosão pop mundial não manteve a longevidade do metal com a sua voraz capacidade de aglutinar estilos se recriar com originalidade e continuar influenciando as novas gerações. O verdadeiro gênero antropofágico da música é o Heavy Metal. Desde então comecei a cantar, formei bandas, fiz shows, gravei discos, não vendi, não estourei, passei por várias linhas musicais, não sou famoso, não tive músicas de sucesso e nada disso importa. O que realmente importa é que eu ainda ouço todas as novidades e as velharias com o mesmo entusiasmo de vinte e cinco anos atrás e esse fogo não vai apagar.

Assista ao Pantera / Phil Anselmo também acredita. http://br.youtube.com/watch?v=dzh8j2qF-WY&feature=related

2 comentários:

Simone do Vale disse...

Adorei esse texto, porque além da virulência do discurso inspirado, potente, me enxergo na mesma época, tomada por dúvidas e tormentos bem semelhantes. O Guitarras me tirou da lama. O Caverna II curou a minha misantropia. E você, desde então, e ao longo dos anos, nunca deixou de ser um herói pra mim. Só o Heavy Metal salva.

Autora Daisy disse...

Puxa vida! Agora sei de onde vem tanta criatividade e talento para escrever como poucos. Cara, que legal. Leminsk é um badalar contínuo literário em meus ouvidos.
Você escreve mesmo muito bem.
Manda um cd pra mim, eu pago as despesas, tá?

Parabéns, moço. Belo texto:)

Ah, dizem que a primeira impressão é a que fica, mas levando em consideração as excessivas doses de uísque, espero que esqueça meu primeiro comentário :P

Beijo, campeão :)